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POEMA À MODA DE CISCO

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(pelos 100 anos do poeta Manoel de Barros)

§01
já ouvi pelo cheiro a cor por onde a crisálida dorme e depois se desfaz mariposa,
sei - quase por instinto encontrar um azul escondido com jeito de ser borboleta,
isso que a humanidade tem de perder tempo com números somas, leis, e importâncias...
melhor é fugir da canseira que nem fui sonhar acordado nos ombros das ribanceiras.
§02
havia uns olhos a vigiar no meio do mato, e pelo céu as coisas que ninguém via,
tinha na cabeça esse véu feito das asas de um sabiá tons de tarde e ave-marias, de repente, mundo acabou-se e o que sobrou foi pedra flor, e canto de passarinho,
foi então, quase alvorada que o tempo desaguou o Homem

ENTREGA

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ele se deixou como água de afundar pelas fendas nas moléculas e escamas onde o peito se contorcia,
nada havia de mais doce que chorar sem medida mesmo que não pudesse nem supor o que sentia...
tarde noite cedo manhã em horas que se adiam ou se levam, sem porquê na aurora nua de astros,
no cicio das aves mudas em clausuras naufrágios
em telas onde ruminam os fantasmas sem rastros...
na pausa no traço na luz nas escarpas do olvido e praças cheias de gente nas esquinas no meio-fio,
no relevo da pele de cera na janela de ver o Oriente na falta de não ter onde ir preencher o imenso vazio...

QUANDO

o tempo chega coisas se ajustam em suas normalidades, o frio corta a pele e o calor estabelece outra sensibilidade;
o tempo chega pode-se dar à bazofia sem reservas, e num espelho adiado surge esse forasteiro que mudo, hiberna;
o tempo chega desloca o eixo da alma latitude, longitude, a medida digna de nota aponta resoluta o oeste da juventude;
o tempo chega vê-se com espanto, não menos propriedade, uma criança inquieta a correr os labirintos de todas as idades;
que o tempo chega oportuno, pontual os voo são outros no chão, nas alturas a pressa será menor, e mesmas, as procuras...

O TODO E A PARTE

deveria ser rio para me perder no mar me vestir de nuvem e desmanchar num céu,
ser pingo d'água e me fundir na chuva a asa do beija-flor e sumir no movimento;
deveria ser poeira e compor os desertos a faísca da chama absorvida pelo fogo,
a réstia de luz num poço de lua cheia um vento casual inserido no inverno;
devia ser a letra perdida na palavra rastro na areia incluído na estrada,
o fio da trama decomposto no lençol o graveto ao léu aglutinado no ninho;
devia ser o ponto encoberto pela reta a fração o número envolvidos no infinito,
o átomo indiviso que em tudo se reúne e se faz inteiro pois do todo é parte.

PERFIL

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Alguns pescam flores vulcânicas outros a lua que flui nas marés eu pesco palavras esquecidas a vagar em cardumes suicidas num oceano que não sei qual é;
Alguns gritam nomes feios outros comem arroz com feijão eu cultivo palavras indomáveis ferozes, dentro de jaulas num teatro de outra dimensão; Alguns reagem a certos sais outros apreciam ácidos latentes eu busco uma alquimia perdida as palavras que giram minha vida jamais estarão presentes;
Muitos declinam a memória esses se contentam no seu canto eu que resisto além da paixão não me satisfaz corpo ou solidão palavras, não traduzem o espanto.

CONTENDA

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caço por esse espaço que se escapa em mim o que sou nesse vácuo em que esvazio pensar?
caço por esse regaço e não vejo a que vim como colher da fonte que se dissolve no ar.
caço por onde refaço nesse caminho sem fim mares que se crispam sem os saber navegar;
caço da luz e do aço nessa contenda assim desde o início de ser até tudo se completar... 

FRONTEIRA

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entre a porta fechada e a hora de ir embora entre a palavra certa e o equívoco de mentir,
entre medos e esporas e a anuência de sofrer entre a abóbada do céu e a ardência do nadir;
entre o beijo e a lua equidistantes da alma entre penumbra e sóis contidos nos músculos,
entre a aurora do fim e o riso da esperança
entre o Grimório mudo e o nada dos opúsculos;
entre a ponte e o rio na lâmina das espadas entre sonhar ou dispor da matéria dos mundos,
entre o ser e não ser dos poderes que lutam entre o eterno e o pó espalhados nos fungos;
entre os olhos a voar desde mares e trilhas entre dedos de cerzir a tapeçaria do ignoto,
entre o que é, e será sem cuidar da partida por cruzar a fronteira de ser o que não volto...

MECANISMO

quis forjaras pedras disto que inexiste compor o intangível da distância de tudo,
pedras de palavras em poeira, vento e das estrelas a luzir entre astros mudos;
quis engendrar luz de névoas e ocultos desgastar o ferro na oxidação de durar,
e essa linguagem de engenhospontua o mecanismo vivo no influxo de pensar...

A LUZ QUE FALTA

Tomei um ônibus diferente do costumeiro, mesmo sem conhecer o percurso. Quis dar uma volta por um lado da cidade que ainda não tinha visto. Fim de expediente, trânsito mais ou menos fluido, pessoas a voltar para casa, outros preparados para cumprir o trabalho noturno.
Como sempre não consigo evitar que o pensamento viaje, às vezes a compor histórias num exercício de imaginar possibilidades, seja num país distante, ou num lugar desconhecido; outras vezes, apenas a me propor uma observação ou outra a respeito do fato de existir...
É notório que essa parte da cidade é mais iluminada, as praças têm um tratamento especial de luzes natalinas, lojas de grife estão bem decoradas, o nível é sofisticado e com propósitos claros de encantar as pessoas que podem gastar mais.
A beleza e encantamento deviam ser o direito de todos; contudo, para as mentes que pensam em cifras, há de existir diferenças, embora o discurso fale de igualdade, e a falácia seja o propagado “amor fraterno”. É o simulacro ao qu…

DESENLACE

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Um poema de amor piegas escrito com veneno e estrela quis existir além do papel,
Na forma de sentir a adaga de uma lua afiada na rosa vermelha de fogo e mel,
Um poema piegas de amor oculto nos renques
de palavras ao vento arrojadas no vendaval,
Um poema de amor vencido e que ainda mantém -se sonho coeso, nesse mundo desigual,
Um esboço da luz no escuro da brasa atiçada na cinza num fogo apagado no final...

REZA

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No acalanto do meu ”affaire” com as mágicas noites e harpias canto ao mestre Baudelaire pela boca de tão maltratada cria,
Que se entorpece da existência mal se pondo de pé ao dia às vezes se gasta em penitência a dizer preces que ninguém ouvia,
A estranha que ninguém preza se desistir, quem lembraria? é quase sombra, é também a reza de todos os loucos, poesia...

FADO

o eco desse silêncio diz tudo entanto, a palavra se arrisca para cada estória sem o final decidi pescar a vida sem isca;
a paixão me queima a língua enquanto no tempo evapora nessa liquefação dos delírios a realidade - que vai embora;
sou um marinheiro sem navio que não me limito a oceanos tudo navego num céu incerto sem me ater aos desenganos;
Ulisses sem encontrar o fim somente avançar é meu norte seja o nada o infindo um deus, seja o acaso, destino, ou sorte...

A TORRE

se ergo a torre prestes a ruir Babel dos ímpetos debelados qual raio me faz resistir?
se cai a torre rente ao chão de qual verdade sustento iniciar outra construção?
se sou a torre dessa estória o que posso arrastar ao céu além de cinzas e memória?
se da torre até me orgulho, quanto da cegueira que tenho desmorona nesse entulho?
se a torre enfim é a prisão da ânsia e da loucura humana que é ser livre, e o que não?
se nada sei, e ainda prossigo quantas torres devo erguer e assim haver-me comigo?

REALIDADE

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insisto nesse embate de ideias que vagam em feixes a incendiar um fogo que dita paixão e medo,
ao tempo em que um destemor vem-se sublevar desses limites em reentrâncias que me segredo;
é duro reverter o sol em chumbo e depurar a prata do plenilúnio num líquido espesso como o pez,

e sentir minar o sal da lágrima nas fendas de sentir esse vazio latente desde que a vida se fez;
mas é leve saber-se incompleto e determinar de toda alteridade a proficiência de buscar o eixo,
disso que une, disso que separa: o que transcende, me ultrapassa e tudo que é imanente, não deixo...

TEMPOESIA

tem poesia no que não vemos no que se vê, sem o saber visto,
poesia de chuva que faz a gota fluir ondas num mar imprevisto;
tem poesia em não olhar nada ou, ao sentir, entrever o perigo,
poesia na asa que alça ao vento uma viagem que não tem sentido;
tem poesia no intercurso da lua a arder essa imprecisão premida,
poesia no tempo de ouvir a cor vibrar uma palavra a ser tangida;
tem poesia no deserto, e nuvens e nessa estrada contígua ao vazio,
poesia, em abismar-se no indiviso oceano, que devora a sede e o rio...

INTERMITÊNCIA

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invento a órbita e o céu das estrelas que não sei o nome sentir é onde navego as águas de chegar aos pensamentos,
libertei aves de imaginar enquanto me prendia à razão agora posso me fartar de sonhos na nuvem que encima o telhado,
jamais quis ir onde terminam as trilhas, aposto em jornadas sem destino, em travessias
mais que em esperar chegadas,
bom artesão de improvisos desfaço o que à lógica soa reto por curvas que guiam espantos meus olhos dimanam no breu,
de certo só tenho o agora até concluir-se inteiro o ciclo do intervalo que refaz a vida desde o transitório ao sem fim...

LEVIATÃ

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preso do meu desespero matei e esfolei o bicho joguei o corpo às sombras e ele, apenas ria de mim,
saiu da pele rasgada queimou mares de vidro de um mal vindo de longe sem ter começo nem fim;                                                         'que fiz por merecer isso' era meu grito no limbo enquanto ruía o universo e tudo a que me prendia,
e o mundo vinha abaixo os átomos se extinguiam lutava além do possível mas o bicho apenas se ria;
talvez me salve da fera mude o curso da história e descubra desse mistério que trouxe a visão malsã...
na tempestade se ergue e com a voz do infinito à luz da última estrela, diz:’meu nome é Leviatã!'