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PASSAGEM

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o próximo degrau que seja para o sol nem saturno ou plutão vênus ou marte tampouco mercúrio mercador e ladrão quero Apolo sonhador gênio puro arte,
e venha ainda Dionísio, o pai do vinho a taça a verter encanto, alumbramento pois o sonhar é ir-se além do humano reconstruir o paraíso de cada momento,
dance a alma o pleno gesto do coração dance a nuvem o mar a montanha céu seja o universo o palco da humanidade numa nova terra onde escorre leite e mel.

REFLEXÃO

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ainda vou viver muitas vidas sem que possa me entender com esse mistério que flutua,
como se mar nem houvesse ou o que se tinha por mares fosse somente a palavra nua,
queria deter o que soubesse daquilo que se chama tempo sem que disso haja o sentido,
pois o que há é luz, e escuro num mundo de cor e sombras em que sempre andei perdido,
é ainda o mistério que marca com ferro em brasa e sangue a asa mutilada que me tatua,
não há voos nem sobre o mar nem a sobre a lua devastada: - viver abisma na palavra nua...

TRÂNSITO

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na carne terrosa da alma: - mundos e sementes e nos meus dedos desliza a água dos tempos,
leio a efemeridade do sol que arde na veia nesse sangue de persistir oceanos a pulsar,
me infiltro na constância de amoldar sonhos mesmo que não detenha elementos, alquimias,
nebulosa de domar a dor passageiro de durar ultrapasso nuvens de ver e razões a supor,
me arvora é desse sentir o eco no absconso a repetir-se entre átomos o trânsito incompleto,
sem deter nem a certeza ou o efeito da soma senão, unido à incógnita partir sem eternidade...

MEMENTO MORI

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sei desse homem antigo envolto em ferro e vidro que trafega pelas praças e crê da filosofia ao vazio,
homem que desconhece de testamento ou destino mas, segue determinado entre o ignoto e o abismo,
sei desse homem as luas desertos, o caos domado nas doses de aguardente à beira da noite sem fim,
e sonhos postos ao largo sem rastros de esperança nos recessos que sangram onde sutura não estanca,
parado defronte à janela revê mundos, desencantos embora a sempre epifania assegure horizontes de luz,
é certo que a humanidade em seu caráter mais puro salve ainda algum motivo que justifique viver e lutar,
contudo, sua alma chora na frialdade da impotência sem que detenha o sentido que se dilui pela amplidão.

NOITE

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dizia-se de uma noite que invadia o mundo e mergulhava nuvens no olhar dos homens,
de uma escuridão tal que as próprias trevas recolhiam-se caladas em desertos de vidro,
uma sombra em ferros numa manhã cinzenta uma mortalha de ecos sobre leitos de insônia,
e no enregelar da alma no arrefecer da busca no desencanto da flor… quedava-se imensidão.

URGÊNCIA

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daquelas palavras ouviam-se corais e intumescências,
labirintos aquáticos, transparências   de antes da evolução,
naquelas palavras rastros dos seres sem genoma traduzível,
e as umidades das eras feito poeira a pulsar contrafação,
eram palavras selvagens como a ira dos fogaréus míticos,
a desafiar a longevidade dos ermos e o silêncio dos vulcões,
eram palavras como garras de leoas a dilacerar temporais…
cujo significado urgia da premência 
que já não sei mais.

CONTRASTES

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era forçosamente uma tarde como as outras inserida em seu instante nulo e insignificante,
como o esvoaçar de uma asa moldada em pedra ou o espaço sem profundeza de um mar represado,
e mediam-se os cartesianos das esquinas as fosforescências do infinito o gradiente da rosa,
a tragédia da dançarina nua a música das pedras todo ritmo em sua sincronia o ressoar das horas,
as umidades dos batráquios a coaxar o nada a desmistificação dos signos e o elixir da vida,
no mais fundo de si mesmo um grito humano extraído da superficialidade é o que destoa de tudo.

RECEITA

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prepara das sementes do orvalho mais puro e da noite mais doída as páginas da alvorada,
tira da garganta o nó e do vazio, as embolias semeia pelos campos o alimento e os sonhos,
liberta tudo da alma pelas doces alquimias recolhidas nas ondas além do fim das horas,
recolhe as mil gotas da chuva evaporada do seu último pranto e dos dias esquecidos
e das palavras inúteis dos cadernos secretos das mágoas em cinzas entalha outro mármore,
revive das parábolas a seiva da promessa lembra à humanidade essa palavra sem dono,
dispõem pelo infinito todas as substâncias aquelas da sua alma e essas dos universos,
as químicas de existir sem pressupor limites e a liberdade de navegar sem repartir territórios...

FALLEN ANGEL

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como ruído no corredor da casa a chama cambiante de uma vela ou uma janela entreaberta no ar, como a música abafada ao longe o aceno de uma mão na estrada e esse pássaro indefinido a voar

como ondas perdidas no deserto um sussurro que traz a ventania e essa ausência fixa no espelho,
como uma sede que nada sacia como o beijo de um anjo perdido numa boca a sorrir em vermelho…

DURA LEX

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um espaço, uma vírgula, um ponto lá se foi uma ideia deambular o não sentido na ação de pôr-se claro um conceito inútil um espaço, uma vírgula, um ponto;
quanto esforço para dizer o indizível, quanta azáfama, quanta falta do que fazer a torneira da pia precisa de conserto há lixo nos escaninhos inconfessáveis do sexo poeira na alma, secreções a serem limpas;

um espaço, uma vírgula, um ponto o teclado inteiro grita, os móveis, os quadros é necessário irrigar as gavetas estéreis ser cúmplice dos grifos que riem na praça;
medir a órbita de Vênus, pichar os muros exorcizar fantasmas, cometer avarias acender velas ao diabo, lutar com deus sufocar na fumaça, abrir os veios dos rios… ...revirar a vida nessa teimosia de sonhar.

DISFARCE

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o rosto feito em retalhos aqui amoldo em silêncios e argilas de esculpir vida,
uma parte fluida absorve essas ranhuras do tempo e a outra, tudo consolida;
molde pronto e está livre toda a imagem formada        mas falha o seu conteúdo,
que essa máscara brilha como adversa à verdade e reflete o avesso de tudo;
refaço a face do simulacro para reiniciar a escultura dos restos de fragmentos,
mas é da mesma imagem que retiro dentro de mim a sombra que me invento...

ESTIMATIVAS

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a tentativa de por ordem às coisas e ser inteligível quantas vezes desligo o interruptor da lâmpada? quantas vezes examino se a porta está fechada?
ouço em mim silêncios obliterados a insipidez das coisas o vazio de uma lentidão a escorrer
como a lesma que carregasse todos os conflitos e eras do planeta,
enquanto isso, os sábios desfiam fórmulas cifradas das químicas pouco nobres, da lei dos fluidos humanos quando é necessário que os olhos vejam o que não se vê...

ACALANTO

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me dei conta de certos apegos a trançar luz pela casa enfeitada cores vestidas de gestos largos e asas de atravessar os mundos,
me dei conta da presença baça sem realce, de uma lembrança quase etérea, se não fosse menos menos que uma estrela avariada,
estrela que saiu da rota, e caiu anjo desmemoriado na fenda nua            da terra desolada, homens ocos sedentos do vinho feito de eterno,
"me dá um gole da sua boca doce deste mel de embriagar o medo  existir fora da tela desse retrato e criar um mundo paralelo ao sul"
não há ninguém na rua – espero, talvez em outra vida, quem dera o que me dói agora é sem nome...
e perto de adormecer sem sonhar.

ÁGUAS

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olhos fogueira líquida a aquecer palavras em silêncio,
lágrimas rio sem voz a diluir palavras que se foram,

oceano dimensão do imenso cujas ondas calam as palavras.

COMPANHEIRA

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a poesia cuida das minha feridas me traz vestes limpas e calça sandálias em meus pés me restitui ao caminho perdido,
a palavra, no entanto, me embrutece me faz perdulário e bêbado entra comigo nos bordéis da lua onde nos consumimos sem paixão, oferece seu sexo, grita meu nome tão-só para acender meu calafrio são aziagos seus beijos lascivos interrompidos na soleira do cadafalso,
me enregela o sangue, turva o sonho nos becos em que a luz é mendiga onde trafego esse meu desencanto um pouco cansado, um tanto absorto,

- jamais sozinho...

DESEJO

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qualquer coisa passa mas o desejo fica, e fica onde não se percebe nem seiva nem sopro,
fica como uma névoa de um outono indefinido na sala onde se rezam as exéquias de sonhar,
e sangra na corrosão de cerzir o tecido velho num revês de esquecer o que não foi bordado,
mas permanece ali e será o mesmo desejo a queimar em geleiras olhos vidrados na luz,
a suspirar sua ânsia nos cubículos de sentir sem se haver de palavra para exprimir um grito,
mudo se contorce nas valas dos penedos onde sobre a pedra nua quedam luas, calafrios
e a aridez do mundo o naufrágio dos tempos uma jornada sem rumo desde o porto sem mar.

SINAIS

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que sombra desce pelas janelas de vidro na chuva a queimar corações e desertos?
tenho asas de olhar além do estabelecido desse determinismo que a tudo devora?
e dessa mornidão a esterilizar sonhos nos é possível fugir? quantos ainda creem?
enfrentar dragões plantar trigais na lua beber desse vinho macerado na vida...
nada do que faça me tornaria outro dos que agora vejo a esperar um sinal,
enquanto se celebra em templos de névoa o cerimonial vazio das nossas dúvidas.

CARTOGRAFIA

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estou destinado a cuidar de mapas velhos mesmo que não saiba que direção seguir,
me perdi muitas vezes mas não saberia dizer se por desatenção ou falha de memória,
tinha por infalível certo senso de direção que jamais me faltou até que um dia...
o bom de perder-se é que às vezes aprendemos por vias pouco suaves outros modos de existir,
das várias geografias coordenadas e ângulos não vejo apenas cálculos
a arte se faz implícita,
assim como na vida um pouco de improviso permite desbravar rotas de outros caminhos,
tenho mapas imaginários de mundos reais sei de mapas reais de mundos inventados,
já disse, meu destino além desse comum a tudo e todos, é cuidar de mapas velhos,