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Mostrando postagens de Outubro, 2015

DISFARCE

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o rosto feito em retalhos aqui amoldo em silêncios e argilas de esculpir vida,
uma parte fluida absorve essas ranhuras do tempo e a outra, tudo consolida;
molde pronto e está livre toda a imagem formada        mas falha o seu conteúdo,
que essa máscara brilha como adversa à verdade e reflete o avesso de tudo;
refaço a face do simulacro para reiniciar a escultura dos restos de fragmentos,
mas é da mesma imagem que retiro dentro de mim a sombra que me invento...

ESTIMATIVAS

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a tentativa de por ordem às coisas e ser inteligível quantas vezes desligo o interruptor da lâmpada? quantas vezes examino se a porta está fechada?
ouço em mim silêncios obliterados a insipidez das coisas o vazio de uma lentidão a escorrer
como a lesma que carregasse todos os conflitos e eras do planeta,
enquanto isso, os sábios desfiam fórmulas cifradas das químicas pouco nobres, da lei dos fluidos humanos quando é necessário que os olhos vejam o que não se vê...

ACALANTO

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me dei conta de certos apegos a trançar luz pela casa enfeitada cores vestidas de gestos largos e asas de atravessar os mundos,
me dei conta da presença baça sem realce, de uma lembrança quase etérea, se não fosse menos menos que uma estrela avariada,
estrela que saiu da rota, e caiu anjo desmemoriado na fenda nua            da terra desolada, homens ocos sedentos do vinho feito de eterno,
"me dá um gole da sua boca doce deste mel de embriagar o medo  existir fora da tela desse retrato e criar um mundo paralelo ao sul"
não há ninguém na rua – espero, talvez em outra vida, quem dera o que me dói agora é sem nome...
e perto de adormecer sem sonhar.

ÁGUAS

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olhos fogueira líquida a aquecer palavras em silêncio,
lágrimas rio sem voz a diluir palavras que se foram,

oceano dimensão do imenso cujas ondas calam as palavras.

COMPANHEIRA

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a poesia cuida das minha feridas me traz vestes limpas e calça sandálias em meus pés me restitui ao caminho perdido,
a palavra, no entanto, me embrutece me faz perdulário e bêbado entra comigo nos bordéis da lua onde nos consumimos sem paixão, oferece seu sexo, grita meu nome tão-só para acender meu calafrio são aziagos seus beijos lascivos interrompidos na soleira do cadafalso,
me enregela o sangue, turva o sonho nos becos em que a luz é mendiga onde trafego esse meu desencanto um pouco cansado, um tanto absorto,

- jamais sozinho...

DESEJO

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qualquer coisa passa mas o desejo fica, e fica onde não se percebe nem seiva nem sopro,
fica como uma névoa de um outono indefinido na sala onde se rezam as exéquias de sonhar,
e sangra na corrosão de cerzir o tecido velho num revês de esquecer o que não foi bordado,
mas permanece ali e será o mesmo desejo a queimar em geleiras olhos vidrados na luz,
a suspirar sua ânsia nos cubículos de sentir sem se haver de palavra para exprimir um grito,
mudo se contorce nas valas dos penedos onde sobre a pedra nua quedam luas, calafrios
e a aridez do mundo o naufrágio dos tempos uma jornada sem rumo desde o porto sem mar.

SINAIS

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que sombra desce pelas janelas de vidro na chuva a queimar corações e desertos?
tenho asas de olhar além do estabelecido desse determinismo que a tudo devora?
e dessa mornidão a esterilizar sonhos nos é possível fugir? quantos ainda creem?
enfrentar dragões plantar trigais na lua beber desse vinho macerado na vida...
nada do que faça me tornaria outro dos que agora vejo a esperar um sinal,
enquanto se celebra em templos de névoa o cerimonial vazio das nossas dúvidas.

CARTOGRAFIA

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estou destinado a cuidar de mapas velhos mesmo que não saiba que direção seguir,
me perdi muitas vezes mas não saberia dizer se por desatenção ou falha de memória,
tinha por infalível certo senso de direção que jamais me faltou até que um dia...
o bom de perder-se é que às vezes aprendemos por vias pouco suaves outros modos de existir,
das várias geografias coordenadas e ângulos não vejo apenas cálculos
a arte se faz implícita,
assim como na vida um pouco de improviso permite desbravar rotas de outros caminhos,
tenho mapas imaginários de mundos reais sei de mapas reais de mundos inventados,
já disse, meu destino além desse comum a tudo e todos, é cuidar de mapas velhos,

MATINAL

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não é fácil olhar dentro nos dentros de si mesmo e expurgar os lodos todos, qual método ensina isso?
às sete da manhã acordo tenho deveres e dívidas os medos se antecipam nessas imagens que já vi,
a coerência vem sacudir esse meu sonambulismo de ter de encarar a vida entre safo, e anestesiado,
perdi a fleuma dos bons estou quebrado, ou vazio? "já não ouço esse pássaro exilado na minha alma",
lá fora, como num filme o mundo e seu continuum não é possível estacionar
tempo vida e terremotos,
não é possível saltar fora deter o curso da história tampouco se pode desligar a tomada sem fio do ser,
a inutilidade da ciência nessas questões do sentir essa fenda no universo a devorar tudo que pulsa,
teria que ser mais forte me disfarçar esse aperto, mas o caos do dia urge com seu ultimato matinal.

PREDIÇÃO

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aprendi dos vaticínios não seguir de nenhum ser nem ardências nem enigmas,
atravesso desertos sem calcular das estrelas sombras que disfarcem o sol,
retiraram-me as asas
aprendi a gravar no vento a ferrugem retinta das horas,
me fizeram prisões abri os veios da liberdade nesse corte de fender a alma,
o pouco que saber guardo antes da sombra oculta na curva dos labirintos,
o muito que lutar é guerra de exceder o longe de oceanos que não me findam.