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Mostrando postagens de Abril, 2017

AO SILÊNCIO

essa candura de espinhos numa rosa dentro da alma esse perfume de ventania numa chuva a cair na sala,
esse azul de ouvir a lua numa cantiga de tudo ninar uma mariposa presa na luz e um louva-a-deus a dançar,
esse lume na cor do olho borboletas feitas de azul essa incerteza de espaços que se desfazem nas mãos,
esse tempero de ir ao dia numa tormenta de partidas esse silêncio que tudo soa numa mudez de tantas vidas...

AO DESERTO

e como se não restasse mais que o silvo do vento nos vãos de uma sala vazia,
ergui os olhos ao alto para as nuvens que sumiam na tela azul de se imaginar,
preso à lógica de existir e ao compasso das estrelas que emitem a rota do eterno,
o que sobra é o deserto onde reponho partes da alma de tudo que me cabe semear...

AO MISTÉRIO

Imagem
me falta a organização
dos seixos rolados na praia
o método do voo dos pássaros
em direção a um horizonte
desvinculado de qualquer rota;

me falta um trejeito original
a capa mágica de super-herói
o rito extático de um santo
as leis de uma física paralela
numa dimensão alternativa;

me falta a medida do infinito
o cálculo abstrato, a curva
que remetesse às janelas da lua
ou traduzisse essa geometria
na língua de um beija-flor;

me falta toda impaciência 
de consumir de cada instante 
o vazio que penetra o universo
e destaca da obscuridade
a palavra que não sei existir.

AO MUNDO

minha voz não será ouvida nem meu sangue derramado irá saciar reinos e escambos,
o ouro a máquina a lâmina a frieza do mármore sangra no rosto sem dor dos ídolos,
espalho meu silêncio pelo caruncho das noites nos becos onde se grita à lua...
minha voz não será ouvida nem minha alma penhorada pagará jogo veneno ou fúria,
inseto larvar da morte me abrigo nos esgotos celestes rastejo pelas orgias de crer,
espalho meu silêncio pelo caruncho das noites nos becos onde se rouba a lua...

AO FOGO

sou desse crepitar de chamas numa luz de olhar as coisas os dias, os incêndios aquosos de sentir, ferir e cauterizar,
sou desse ardor de sonhar com as mãos postas em garras a rasgar do fruto o proibido num ferver em caos, e sangue,
meu silêncio espesso gravita a brasa que dorme na matéria até romper os sóis do infinito nem cinza me apascenta a hora.

AO MAR

escrevo em suas ondas as minhas reentrâncias os meus abismos, meus sais minha gota de cinismo, o mal que trago desde o princípio,
não sei se o que digo seria digno de nota, ou não apenas preciso escrever como num automatismo de ar a preencher os pulmões,
preciso, talvez, deixar seguir em correntezas nuas isso em mim represado opresso, medido, suspenso sedimento na cloaca de pensar,
então, frente ao imenso ao desmedido do ser, fluir meu corpo em palavra morna pelas areias da praia a praia que esqueci na alma.