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SEM FIM

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Cultivo muitas vidas por dia Depois morro a cada contrato Para nascer o tempo me expia Dos motivos por que me mato
Escrevo um livro cada hora No momento seguinte esqueço Quando a febre vai-se embora E junto à penumbra estremeço
Leio a alma num segundo Mas desconheço qual razão As magas desfiam outro mundo Contudo, este é minha prisão
Canto uns versos pelo sem fim De tropeços, de enganos amei É vergando esse oceano em mim Que descarrego o que não sei. 

TRAÇO

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Vem até meu sonho Lua de papel crepom Borboleta marinha Na concha do furacão
Margarida entre pistilos De sol em profusão Vênus das madrugadas De zumbir solidão
Vem estrela dos becos Caravela de botão Estância do mistério Ou jardim da tentação

Rosto que não lembro
Gesto sem se anunciar
 Primavera sem setembro
Sereia de nenhum mar 
Beijo de fogueira acesa Na centelha do estio Traço que inverte o céu No retalho do meu frio.

CÉU DE AÇAFRÃO

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O tempo em mim É sair pelo espaço E vazar imensidão Nas trilhas sem fim
Esse pensamento É como fosse abrir Ao sabor do vento O mar sem direção
Enlaço o instante Além do que vive E tudo que cante Dos frutos que tive
Som da ventania No céu de açafrão Do pó é que saía A alma feito grão...


Quão doce é ter de amar e o quanto tenho de sonho, Que em meio a doçura está   os versos que me disponho. J. Ribas

BARCO DE PAPEL

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Numa folha de papel colorido Dobro um barco com as mãos, Como se dobrasse outros tempos E o arremesso nas águas que vão
Desliza pela enxurrada que cai De nuvens que regam a imaginação, O barco que vem menos por nostalgia Que por uma lembrança que se trai
Pois quis ver motivos em barcos Em temporais que vazam no coração, Entanto são as horas que se arrastam Em durar, e fingir-se embarcação...


Que estou na equidistância de uma fração dividida, A alma reparte-se em mares que se evaporam da vida. J. Ribas

SALTIMBANCO

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Já fui o saltimbanco ligeiro Disfarçado em alegria, Nas praças exibi o espetáculo, Ao meu lado andava a magia Da ilustrada loucura E dos pantáculos;
Um dia quebrei as asas No salto escuro do trapézio, Entre o infinito e a dor Vivo agora sem rumo, Não sou herói nem bandido Pirata ou domador;
Piso as rimas Submersas pelo espaço, Viajo léguas sem compromisso Até as fragas do sonho, Não sei o que quero com isso Porém, disso me refaço.

§§
E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão.

Miguel Torga

PALAVRA

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Agito das linhas frágeis Da quase loucura humana A palavra a sangue-frio Feito um corte na veia
Quis mesmo a palavra crua Remendada, de sabre no olho Vexada rota seminua Como sopro que incendeia
Que sejam as corriqueiras A reles, riscadas a giz Saindo das bocas nas feiras A devorar o que ninguém diz
E não esqueço, é a palavra Que goteja sangue, universos Refugo que nutre e lavra As mutações do aprendiz...

Com a alma só comovida Do sonho e pouco da vida. Fernando Pessoa

GRITO

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O pôr-do-sol transversal Estende o seu ouro velho Nas cercanias do planeta Deixo o caos me distrair Borboletas sugam o açúcar Das horas breves;
Minha vida suburbana Sob os holofotes do circo Encolhe a cauda espinhosa De dromedário ronceiro O sertão da caatinga nua Encharcado de neve;
Fujo para o mar verdoso Dos seus olhos castos Beijo seus seios túrgidos De alvos alabastros A turmalina e o minério Da alma se abrasam;
Um anjo sob o viaduto Grafita os sinais do céu Mimetizados na luz Adão e Eva fogem do paraíso Entre folhas de parreira E maçãs, eles descasam;
Não quero entender O mundo e suas falácias Não vejo cor no cinza Esse gris não tem graça Há mais cores entre mim E o que se oculta infinito;
Se buscasse o provável Não o teria percebido Tanto quanto me perco Nos quânticos espasmos De atravessar o fio Insurgente desse grito. 


OUTRO POEMA

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OUTRO POEMA
Matou-se o pouco de mim cada dia E a cada volta da emboscada Foi-se a alegria, de fantasia rasgada Um sugou o cobertor de estrelas Outro ainda, o fogo que alimentava
Ficou um sorriso de vidro, transfixado Num momento que não mais vem Porém, selei da vida um emblema Dos avessos que enlaço meu dilema A campear verdades aqui e além
Que não vão fisgar a réstia de vida Nem as veredas pelos quais saía A revirar as distâncias em liberdade Não puderam atalhar os infinitos Guardados na prensa da ventania
Escolhi o meu campo de batalha Da luta forjada no pensamento E se desato mancheias de espanto É de levar às vias do impossível A busca de significados que canto.

BAILARINA

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De asas translúcidas Em seu corpo aéreo Olhos a fisgar luas Inebriadas de mistério
Desmonta o tempo Anuncia o apocalipse Subjuga luz e espaço E se alinha no eclipse
Delicada bailarina Sopro que liberta Os véus de desvelar A sua alma inquieta
Cintilar perpétuo Na sombra que afundo Seus passos serenam As dores do mundo
Encanto displicente De o vento soprar As ondas do oceano Que jazem no mar
Irrompe a ventura Do sonho que desejo E acorda o universo
        Nas asas de um beijo.           

RABISCOS

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Essas palavras jogadas ao vento Nem céus e terras ultrapassam São umas palavras que invento Desse retrato aferrado de existir
Algumas libertam pensamentos De outras o destino é submergir A bordo dos barcos naufragados Nos temporais severos de existir
São cartas perdidas, já sem uso E frases que ecoam sem dormir A tecer monólogos inconclusos Esse burilar contínuo de existir
As confissões inúteis, sem data As horas ocas e tempos por vir... Palavras, mutiladas do que falta São apenas os rabiscos de existir.

§§


Em volta tudo ganha a vida mais intensa, com nitidez de agulha e presença de vespa.

João Cabral de Melo Neto

DIÁFANA / OLHAR

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DIÁFANAEla sofreu, sofreu Até não poder mais, Remexeu no baú de doer, Pôs o ruge manchado do sonho;
Inverteu as asas das abelhas, Apagou até as borboletas Entre os últimos vestígios de cores, Suspirou pela ausência de si;
Transbordou o seu mundo Gota a gota até o topo do silêncio, Compôs um adágio, e um crepúsculo... Agora, sim, podia chorar.




OLHAR
Aqueles olhos Rasgam luminescências Pela superfície, Quase se deixam escorrer Da luz a nascer Nos penedos; 
Poderiam ferir Com a limpidez de sóis No azeviche, Sem deixar de serem Lumes a incendiar Em segredos;
Olhos de ver Pela fresta de se descobrir Outros detalhes, Pequenos e imperceptíveis De toda gradação Todos os tons;
Olhar de dizer O que sequer se pronuncia Ou sequer fale, Com o alcance do silêncio  Que ecoa na alma  Os seus sons.


ENCANTO

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"Há palavras que nos beijam Como se tivessem boca"
     Alexandre O'Neill  

Sinal e outros poemas

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SINAL
Teço casulos em torno Das dobras do arco-íris, Cruzo rios contrários  Do ar a varrer as nuvens, Suturo os astros pungidos Céus que se insurgem;
Mas não aprendi as rezas De deter abismos e escuros, Escondi poucas cores Pelos alcantis da aurora, E resta pouco tempo De achar o que procuro;
Pudesse ao menos ver O caminho por entre o véu, Ou sentir qualquer sinal Sob as escamas do vergel E de alma nua, afinal  Ir aos mares do paraíso;
Que tudo que tenho É pouco mais que a espera De um fugidio momento, A memória que escapa, O quadro que se desfaz Da cena que apresento;
Mas vou seguir adiante Em voo cego pela noite,  Das touceiras de sonhar Agarro uma última estrela, Que é acesa de imaginar  E nada pode retê-la.



COMPLETUDE
Estou predestinado A me sentir faltando Mais do que se fosse pleno... Gota, mais que chuva Cinza, mais que matiz;
Pulo, mais que voo Argila, mais que criação Brasa, mais que fogo Pulsar, mais que tempo Blue, mais que feliz;

Legado e outro poema

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LEGADO
Trago estórias escritas na janela Do sonho, por eras intermináveis, O vir a ser dos tons esmaecidos Subtraídos dos retalhos de viver
Trago variedades do impossível De acertar por vias e estâncias, Disso que mal suspeito distinguir E toda essa realidade proposta
Trago dentro, alentos pródigos, Muitas perguntas sem resposta E os acordos falazes do mundo Que adiaram as lutas do infinito
A rebelião do oceano em fúria As quedas inevitáveis do sonho, E de um território não lembrado Lanço brados pela madrugada
Trago o betume, a vala comum, O casulo de borboletas nascidas Do pântano da alma, que a vida Pôs dispersas, a voar em calma.


POEMA ESCURO
Na meia noite da minha vida Vejo por um instante o clarão Que faz brilhar uma lembrança Das muitas que ainda virão
As escolhas certas que não fiz