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Mostrando postagens de Agosto, 2012

POEIRA DE ESTRELAS

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Descobri poeira de estrelas Num pedaço amassado de papel Nele guardei dos meus sonhos O que a vida inteira me passou Breve, rodopio, carrossel
Fui menino alado de voar os dias Cavaleiro de dançar folguedo Namorador e rei de sereias De espantar dragão e calafrio Com o sol nos meus brinquedos
Fui homem manso e falador Decifrador de sinais e estórias Que quis mulheres e foi amando Corsário que arriscou do amor O tempo de não sei quando
Fui velho a cismar o eterno Feiticeiro de domar os litígios Viajante das minas do inverno Amálgama de deserto e nevoeiro Por entre os ecos dos vestígios
E da poeira que não vou contê-la Por sobre os escombros da vida Ou nos estilhaços da estratosfera Traço o arado nessas partidas Vou semear terras mais belas...
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ARQUIVO DE SOMBRA E VENTOS

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ARQUIVO DE SOMBRA E VENTOS
Tenho guardado em mim
O arquivo de rever a vida
De não chegar ao impossível
De já estar pronto, do sonho
Enquanto estou vivo
De querer improvisar a festa
E vontade de bem amar
Ainda sinto que me resta
Tenho guardado em mim
As sombras, desejos, o escuso
O breve discurso do método
O porto não tão seguro 
O sol dividido no bolso
A elegia e o cantochão
Os lugares onde não andei
As mordidas no pescoço Tenho guardado cioso e ausente
As tempestades e o vento
Brumas que dilaceram teofanias
Entre constância e resignação
A panela das estórias
Onde fervilham teimosias
E os aromas da ocasião
Que defumam as memórias
Não quis guardar o invisível
Por simples descuido
Mas o absurdo, e o implacável
Que poupo sem motivo
E nas caixas lacradas, os desafios
Dos pecados sem perdão
Digladiam-se no cio divinatório
Dos deuses sem predição
Que saberei guardar também
O teorema da alma aflita
A teoria poética do bem
A receita de batatas fritas
Da filosofia, o excelso incensário
E a culpa de não ser sincero
O que soma mais um…

COSMOS e DESTINO

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COSMOS
Quero os impossíveis que estalam Dentro de salas fechadas e vazias As luas entre o mundo e o sonho... Procurar unicórnios em tapeçarias
A hora passada sob os pontilhões Em correr as ondas perdidas de si E um barco imaginário a navegar Até encontrar-se o porto de existir
Uma taça entre o vinhedo e o elixir Um pássaro entre beija-flor e cristal A esgrima a repartir alma e pessoa Sem que se consiga distinguir qual
O toque distante da voz sugerida De legiões de sereias na tormenta O fulgor do sol a dourar o oceano E espelhar tudo quanto se inventa
Não quero estar preso a fronteiras De erguer muralhas para o infinito Quero o chão de altivas planícies E colinas ao alcance de um grito.



DESTINO
Quando em absoluta distração O trovador inventa os seus versos  Detém-se a trajetória da estação E a origem de todos os universos 
As montanhas tornam-se rasteiras Golpeadas por um encantamento E as nuvens se dispõem em fileiras Que recobrem todo o firmamento
Porém, não elegeu esse caminho Um bruxo em seu encanto inaudito Golp…

Estrela e outros poemas

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DO COMBATE

Entalhei aluviões em pouco barro E enganei a chuva dentro do rio Tenho perdido mares em conchas E muito pouco me permiti demolir Anêmonas, disritmias, e calafrios
As garras do delgado sobressalto As órbitas dos olhos do grão-vizir Os gânglios amorfos de memórias E o cristal lácteo de ainda existir São frutos do meu último assalto
Nem transpor a singularidade De ser prisioneiro dos elementos Ou fundear além do pântano azul Fizeram-me definir o arrazoado De ideários, causas, sentimentos
Continuo sem certeza nenhuma Mesmo a fé dos dias ensolarados Ou o céu possível da primeira vez Mas as palavras são meus soldados E o combate, esse poema fez.

VIAGEM

Depois de arrancar da estrela O supremo gesto de alvorecer E descobrir de ondas perfiladas A direção de todos os refúgios Estou ao pé da longa estrada
Não havia transposto a curva Dos meus malbaratados céus Nem tinha onde calar o medo

SENTINELA

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As flores são dispostas na janela Espelhos cicatrizam a luz do dia O ventre do céu engole nuvens Um momento disperso se recria Entre sombras que me surgem
Como sentinelas, os meus receios Na altura de ausentes cordilheiras Através da qual estão a deslizar Os enganos de uma vida inteira Na corda bamba partida ao meio
Bem sei quem sou nessa fronteira E sei o que busco dessa estrada Ainda a que agruras me destinam As pegadas pelo pó que estala A contornar os mesmos caminhos
Mas que acendam essa fogueira E a alma queime o que a abrasa Outras distâncias e rumo ignorado Vou-me lançar ao sol a vida inteira Ainda que derreta a cera das asas.

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Gastei tudo que não tinha Sou mais velho do que sou. Fernando Pessoa