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Mostrando postagens de Novembro, 2016

CENÁRIO

uma frase solta no livro entreaberto um vento a andar na sala descuidado,
na janela, eram cortinas ou asas? e a lua cai do céu e vem dormir no telhado,
se isso é um sonho, rima ou encanto e se muda o curso do rio da vida...
ou é apenas um instante que passageiro refaz as horas que demos por perdidas...

BÁLSAMO

“o poema senhores, nem fede, nem cheira”* o poeta por sua vez é a fragrância decisiva e despudorada de tudo o suor das pedras nuas na secura dos desertos, a tormenta do mundo;
o poeta exala absurdos esparge impossíveis reacende os incensos das resinas interiores e trescala dos bálsamos o absconso dos sonhos “o poema senhores, nem fede, nem cheira”*;
que o poeta traz o pó entranhado dos tempos aroma de água da chuva na eira de rios exauríveis dissemina-se delírios  e espalha na sua palavra o mal cheiro do mundo como um novo perfume...

* De um poema de Ferreira Gullar.

RAIO CLANDESTINO

desabotoei a clave de sol na garganta para cantar o que não sei das palavras,
o mais perto que alcancei de perfeição foi o céu dourar o escuro da madrugada;
se penso demasiado, viajo num raio de cor que matiza de luz as asas das borboletas,
o que me falta de certeza faço de inventar uns modos de olhar coisas fora do prumo.

SEM FINAL

que desejo jaz nas gavetas, a espera de um dia se encontrar as coisas dadas por perdidas?
que mar não foi conquistado, adormece sem marés ou estrelas em terras ainda a descobrir?
que gemidos fechados na casa, vão a se desfazer em poeira  enquanto a esperança anoitece?
quantos olhos postos à janela, vigiam os pássaros de sonhar que o tempo engoliu nos ninhos?
que danças ficaram no salão, sem que se pudesse concluí-las antes do chegar o Armagedon?
que castelos foram tragados nas mãos imprevistas das ondas antes de se poder inventá-los?
que vidas foram suspensas como semente em um solo árido e a poeira é tudo que resta?

APRENDIZADO

aprendi no rigor das pedras um clamor despercebido que faz erguer as montanhas à proximidade do céu;
sentir foi na raiz da terra de crescer as sementes que desenlacei as gramaturas e mistérios do silêncio;
no canto de pássaros soltos é que escuto a música que engravida a alma de sol quando chove saudade;
construí com zelo de abelha cada sulco de palavra para prover um mel de curar o amargo de ver o mundo.

EXÍLIO

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levantar cedo e organizar a dor catalogar o sentido da revolta recolher os centímetros sem uso,
disfarçar nos olhos perfurados uma caterva sem fim de perjúrios cometidos sob os lençóis sujos;
bocejar na evidência do óbvio desfocar a paisagem no espelho pintar o quadro mais de uma vez,
e levitar na órbita de Saturno quando ninguém estiver a julgar as gastas boas maneiras clichês;
mergulhar através da porta oca desmontar as peças da escuridão emudecer o grito na bolha azul,
subverter por um momento breve essa previsibilidade de existir... depois, me exilo de vez em Cabul.

VAZIO EM BRASA

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me arde a asa amputada de um desejo que tolhi em vãos escuros de águas a escorrer dias febris,
me falta a região de mar que não pude estancar numa sangria de percorrer histórias que não fiz;
me acalanta uma canção toada na voz dos montes onde grita sem cessar um jardim de distâncias,
me fere a eletricidade de exaurir a sofreguidão e ninguém desata o nó a me sufocar tanta ânsia;
me esconde esse abraço de tentáculos e incertezas que me fixam à fronteira de tanto esquecimento,
me consome as geleiras em salões transparentes onde queimam na escuridão as sombras que invento...

CONVERSA COM O TEMPO

ao fim da tarde de mais um dia meu corpo transpira o monótono de cavalgar pelo vazio das horas, que é o tempo? – digo ao relógio e ele me responde com o silêncio;
até onde sei, a vida é esse caos que contemplo do limar da torre onde ergui conceitos, autos de fé e os estamentos de bem viver aparências, normas, e cortesias;
até onde não sei, ser humano é estar num limiar de duvidar-se sem lograr deparar uma resposta na indeterminada, e desmedida espera de ver fugir o que somos;
o tempo é uma ilusão – reflito, e o relógio – mudo de respostas, absorto na tarefa de ser relógio, indiferente ao que quer que seja me leva - em seu ciclo perpétuo.

REBENTO

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os poetas vão rareando uns poucos que rebentam (gotas de chuva no deserto),
sufocam entre as pedras mas se riem da gravidade da dura sorte e do incerto;
que ser poeta, incautos é broto que abre na pedra a porta que lhe nega o chão,
à força de não dizer sim ilegítimos, crus, impróprios retinem esse infindável não...

ANDARILHO

a porta entreaberta era um convite para entrar mas ele sentia apenas chegada a hora de partir ir-se adiante, na direção que não coubesse medir,
os braços abertos eram uma fala de desvelos mas ele via correntes onde havia asas translúcidas e temia perder-se sem ar no rarefeito das astúcias,
preferia ser sozinho que rodeado pelas sombras de velhas imagens de sal o que para ele bem pendia entre a suspeita e a raiz semeada de todo mal,
onde ouvia canção e loa preferia gemido e urro sua comida era o pão austero retirado com o suor da terra: a poesia, de olhar distante, era sua pátria em guerra...

PARTITURA

faltava um ponto final uma chuva fina na veneziana um vinho a escorrer na boca um vento em salas esquecidas uma voz perdida na noite,
faltava uma peça no tabuleiro a toalha de renda na mesa uma lua dessas sem nostalgias um pardal na caixa de sapato a lucidez dos abismos nus,
faltava um olho de vidro e uma asa perfeita de albatroz uma dança um êxtase um salto a terceira parte das galáxias a onipresença dos contrários,
faltava uma parte da história a palavra mais que perfeita o silêncio das ondas em alto mar a nudez de um por de sol... nesse parto de alma incompleta.

DESEJO

das migalhas das estrelas que recolhia em seu sono fez os confins desse relevo em que sonhava sua vida,
queria mais de si, de tudo mais que apenas o sonho mais que seguir as trilhas mesmo sendo de estrelas,
assim, quis abrir os olhos e romper o cristal da alma reencontrar a sua verdade mais que apenas estrelas,
algo próximo da limpidez mais que somente chama qualquer coisa por inteiro além da poeira das cinzas...