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SECRET BOOK

às vezes me pergunto por lugares onde não estive em quais deles ficou parte da memória que sonho em qual lua em qual mar o coração bateu despercebido...
tem sido assim a viagem por dentro das horas, dias no planeta que gira no quarto onde às vezes sigo a órbita um mundo preso no livro onde as palavras se escondem...

NA PELE DO CAOS

vago no deserto em mim de falhas de dissabores enquanto a lua deságua pela noite que não vem da janela, sei o tempo;
assim como sei o vazio e as estações do eterno os semitons das baleias das conchas, das pedras da gestação de existir;
quanto há de se debater no sargaço de incerteza e seguir a rota da vida? em que mar nos perdemos sem concluir o mistério?
num milésimo de segundo caem as regras os muros na cartilagem das horas na urdidura das sombras nas artérias do invisível;
o que resta se dissolve em músculos em estrelas arrepio na pele do caos paisagem vista ao longe de quando a noite chega…

VIDÊNCIA

Imagem
o que não me define é o que pulsa comigo e a mim se assemelha,
e embora meu reflexo por tudo se dispersa como chuva na telha;
o que não me inicia é origem do que sou seja o fim ou início,
o sopro da vertigem os ângulos da elipse o céu do precipício;

o que não me liberta não me detém a busca nem me restaura a fé,

me escraviza o corpo de um não lugar vazio
que a alma vê onde é;

que não me demarca
nem deserto ou mar nem pedra, lua, chão,

se o grito me resume um sopro do silêncio faz a palavra em vão...

MENSAGEM NA GARRAFA

são dias em que é preciso apertar o passo e esquecer a chuva desses dias que um sol cinzento anoitece a vida aos poucos sem crepúsculos à beira mar…
são dias em que é preciso ser forte o bastante para seguir o curso das coisas, a fome a rota prescrita – e aquela curva onde a liberdade se esconde…
são dias em que é preciso fazer de conta, sorrir ao bandido mesmo que depois se vomite a tarde inteira de impropérios sem esquecer os planos de combate…
são dias em que é preciso ouvir os pássaros, e o silêncio insistir em algo mais que sonho que nos enraíze a sabedoria e faça outra realidade florescer…
são dias em que é preciso escrever poemas e os jogar ao mar porque na ilha deserta que somos a resposta pode estar do outro lado e a pergunta mostra como chegar…

FILME NOIR

já era tarde da noite e as ruas dentro de mim estavam vazias de pensamentos os postes cheios de estrelas eram transportados ao céu…
não era hora de ser romântico não tinha vinho na taça o sangue a pulsar nos músculos tingia de vida a imaginação (é certo que anjos choravam…)
o que restou do mundo - um quadro de Dali em chamas - tudo dormia no gelo da madrugada grilos faziam o fundo musical num cenário de filme noir…
da janela olhava a vida num lugar qualquer do planeta sons à distância lembravam que há os que nunca dormem (será que eles jamais sonham?)
e o que restou do mundo cabia numa frase de Nietzsche para o qual olhar abismos os faz refletir de igual modo o inominável em nós submerso…  

O EQUILIBRISTA

destituído de certezas atravesso o fio da realidade passo a passo com a dúvida nesse exercício de equilibrar a verdade que me sustenta;
o que me leva ao outro lado é também o que me paralisa ações e reações estudadas em gestos de inseto e fúria a fundir carne e metafísica;
o que me espera, desafia em cada milímetro no espaço não importa se à distância rugem os pecados, e o medo me devolve uns olhos vazios;
nada importa mais que ir na hesitação mesma, e na dor apesar de, a meio caminho, compreender não ser possível chegar onde jamais se alcança…


À SOMBRA

essa filosofia que procuro meio bêbada pelos becos meio nua de artifícios, cética e sem um norte improvável no improvável das questões,
me excita o sexo amoldado me fura os olhos, a lucidez o patético da cobiça inútil o medir-se em comiserações no extremo das ausências,
não sou bom em investigar desconfio dessas equações rezo incensos de distâncias preces onde afundo os pés a semear suor, e cansaços,
as asas partidas, os refugos estilhaços de olhos, febres maleitas, remorsos a gemer num coito de interrogações no improvável de saber-se,
essa matemática de desvios
refaz subtrações e vertigem o hesitar de por-se a caminho e descobrir o pó do sempre na sombra que vaga o infinito…