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FILME NOIR

já era tarde da noite e as ruas dentro de mim estavam vazias de pensamentos os postes cheios de estrelas eram transportados ao céu…
não era hora de ser romântico não tinha vinho na taça o sangue a pulsar nos músculos tingia de vida a imaginação (é certo que anjos choravam…)
o que restou do mundo - um quadro de Dali em chamas - tudo dormia no gelo da madrugada grilos faziam o fundo musical num cenário de filme noir…
da janela olhava a vida num lugar qualquer do planeta sons à distância lembravam que há os que nunca dormem (será que eles jamais sonham?)
e o que restou do mundo cabia numa frase de Nietzsche para o qual olhar abismos os fazia refletir de igual modo o inominável em nós submerso…  

O EQUILIBRISTA

destituído de certezas atravesso o fio da realidade passo a passo com a dúvida nesse exercício de equilibrar a verdade que me sustenta;
o que me leva ao outro lado é também o que me paralisa ações e reações estudadas em gestos de inseto e fúria a fundir carne e metafísica;
o que me espera, desafia em cada milímetro no espaço não importa se à distância rugem os pecados, e o medo me devolve uns olhos vazios;
nada importa mais que ir na hesitação mesma, e na dor apesar de, a meio caminho, compreender não ser possível chegar onde jamais se alcança…


À SOMBRA

essa filosofia que procuro meio bêbada pelos becos meio nua de artifícios, cética e sem um norte improvável no improvável das questões,
me excita o sexo amoldado me fura os olhos, a lucidez o patético da cobiça inútil o medir-se em comiserações no extremo das ausências,
não sou bom em investigar desconfio dessas equações rezo incensos de distâncias preces onde afundo os pés a semear suor, e cansaços,
as asas partidas, os refugos estilhaços de olhos, febres maleitas, remorsos a gemer num coito de interrogações no improvável de saber-se,
essa matemática de desvios
refaz subtrações e vertigem o hesitar de por-se a caminho e descobrir o pó do sempre na sombra que vaga o infinito…

STANDBY

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me devoto ao impossível tanto quanto creio no tempo e seja próprio do existir o embate inútil das ideias,
me devoto aos artifícios como se a derme calcificada da alma, toda se adequasse em mimetismos e disfarces,

no indissolúvel contrato do desencontro, e do vazio tudo é uma espera constante enquanto se macera a vida,
mas o espetáculo continua seja noite ou tempestade e o que movimenta a máquina
ao menos também a pulveriza...

POÉTICA

sei contar estrelas até cansar e enumerar nuvens pelos tons umas mais cinza, outras azuis aprendi cedo a planar avessos,
deliberar os desusos e vazios foi um ato contínuo a discorrer assim como ver o imaginário fosse mais o certo que existir;
sei coisas do como, do quando que nenhuma soma dispõe ver tudo que seja fortuito me fala num idioma de aflorar os rios,
tudo de já esquecido no mundo me fala em olhos de horizontes o sol me forma sobre o tempo a lua me canta jeitos de sentir;
entendo o invisível e a poeira leio fragmentos em espelhos sei a rota que une o impossível a esse mistério do outro lado,
sei coisas do sempre, do porquê aquilo que se nega, eu afianço traço letras de tudo pertencer do pasmo ao imanente que advir...


A NOIVA DO VENTO

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Contam a mesma estória sejanoite -ousejadia anoivadovento se fora arrastada pelaventania,
Alguémviusuagrinalda ou alguém lhe pôs o véu e quem a levou embora nosrastrosazuisdocéu?
E diz-sequeamoutanto melhorquenemsediga
umnoivocioso,entanto… tirou-lheachamadavida,
Aoutroéquepertencia seudesejonãoeraoaltar asbodas são celebradas pelosredemoinhosdoar,
Vejo-adançarnoabismo todaalma e sentimento contamatristeestória se

DA SENTENÇA

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como o peixe foge do anzol essa solidez de névoa que se dispersa pelos vãos,
de um sentimento sem forma que ocupa os espaços vazios, sem raiz, sem chão...

como o anzol vigia o peixe essa demora de gestos que se levam na correnteza,
e mundos ficaram suspensos nas mãos do anjo caído condenado a abjurar a beleza...