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A CAIXA

O poeta tirou da caixa 
Guardada entre palavras
Uma parte das estórias 
Das que sabia contar

Com uma fez mar e céu
O sol a brilhar, enquanto
Trazia montes, oceanos
E cores ao dia branco

De outra extraiu a luz
Da estrela que incendeia
E acendeu pelas noites
Uma copiosa lua cheia

Das coisas esquecidas
Inventou os brinquedos
Que ganham vida no ar
E escondem segredos

Criou magias diversas
Outros passos de dança
Pássaros azuis, e um jeito
De ainda ser criança

Fez o paraíso na terra
O sopro da eternidade
Compôs almas aos pares
A estação da saudade

Depois de tudo contar
De si mesmo deu-se tudo,
Restam-lhe as lonjuras
De silêncios absurdos...

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CÔMPUTO

A equação do voo das moscas o zunido do fosso dos ventos, O número de grãos da areia a ferrugem dos dias e da alma,                                                                        O azul a lua etérea,                              as páginas obscuras do Índex, voos e ardis,                                                                                 O abecedário das formigas o sustenido dos pardais, O sol nos bancos das praças a ordem objetiva do mundo... Tudo foi calculado.

ESTANTE

Colaboração de Rita Carvalho   em desenho de  Raquel Pinheiro (clique para ampliar) ando a procurar inspiração me fogem as palavras, como dizê-las? as razões e os modos desaprendi; o único caminho que sigo, ainda, é entre incertezas; guardava poetas na estante mas hoje os guardo lendo a vida e reconheço, viver é intraduzível; o único caminho que sigo, mesmo, é entre asperezas; tem momentos em que o silêncio faz gritar a poesia com palavras que não se escrevem... não quero descobrir os caminhos, apenas ter a luz acesa.

O OUTRO

Me desfiz de mim há algum tempo esse que tropeça entre móveis, gestos é outro mais incerto, Aposto aos dias às horas mornas cego e absoluto Menino Sentado - Portinari de vazios, equívocos viagens sem retorno, Faísca em geleiras seu coração rude mãos calejadas                         o arado nas pedras a trespassar o desejo, Abala os montes acordos, os mitos apura a veleidade inútil das esperas, do sonho impossível, Falho de verdades à beira do abismo entre asa e vento segue o caminho, é outro mais incerto.