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JANELA

me sento no chão de estrelas
para escrever o que não vejo
da janela vejo a rua, pessoas
mas o que ansiava, não vejo;

o que nesse instante se passa
de nada sei, embora continue
nessa insistência de procurar
enquanto um rio de coisas flui;
 
o que houve de amores e não
o que existe que mate a sede?
qual mar me surgirá dessa vez
ao lançar novamente a rede?

desperto num céu de estrelas
com o pretexto de ver sentido
no dia comum - e pela janela,
deixo-me a imaginar comigo;

o que vejo em mim de incerto     
de outro ponto é que observo,
onde o mundo que reconheço
à indefinição sempre reservo. 

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CÔMPUTO

A equação do voo das moscas o zunido do fosso dos ventos, O número de grãos da areia a ferrugem dos dias e da alma,                                                                        O azul a lua etérea,                              as páginas obscuras do Índex, voos e ardis,                                                                                 O abecedário das formigas o sustenido dos pardais, O sol nos bancos das praças a ordem objetiva do mundo... Tudo foi calculado.

ESTANTE

Colaboração de Rita Carvalho   em desenho de  Raquel Pinheiro (clique para ampliar) ando a procurar inspiração me fogem as palavras, como dizê-las? as razões e os modos desaprendi; o único caminho que sigo, ainda, é entre incertezas; guardava poetas na estante mas hoje os guardo lendo a vida e reconheço, viver é intraduzível; o único caminho que sigo, mesmo, é entre asperezas; tem momentos em que o silêncio faz gritar a poesia com palavras que não se escrevem... não quero descobrir os caminhos, apenas ter a luz acesa.

O OUTRO

Me desfiz de mim há algum tempo esse que tropeça entre móveis, gestos é outro mais incerto, Aposto aos dias às horas mornas cego e absoluto Menino Sentado - Portinari de vazios, equívocos viagens sem retorno, Faísca em geleiras seu coração rude mãos calejadas                         o arado nas pedras a trespassar o desejo, Abala os montes acordos, os mitos apura a veleidade inútil das esperas, do sonho impossível, Falho de verdades à beira do abismo entre asa e vento segue o caminho, é outro mais incerto.