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EXÍLIO

levantar cedo e organizar a dor
catalogar o sentido da revolta
recolher os centímetros sem uso,

disfarçar nos olhos perfurados
uma caterva sem fim de perjúrios
cometidos sob os lençóis sujos;
fonte - culturainquieta.com

bocejar na evidência do óbvio
desfocar a paisagem no espelho
pintar o quadro mais de uma vez,

e levitar na órbita de Saturno
quando ninguém estiver a julgar
as gastas boas maneiras clichês;

mergulhar através da porta oca
desmontar as peças da escuridão
emudecer o grito na bolha azul,

subverter por um momento breve
essa previsibilidade de existir...
depois, me exilo de vez em Cabul.

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CÔMPUTO

A equação do voo das moscas o zunido do fosso dos ventos, O número de grãos da areia a ferrugem dos dias e da alma,                                                                        O azul a lua etérea,                              as páginas obscuras do Índex, voos e ardis,                                                                                 O abecedário das formigas o sustenido dos pardais, O sol nos bancos das praças a ordem objetiva do mundo... Tudo foi calculado.

ESTANTE

Colaboração de Rita Carvalho   em desenho de  Raquel Pinheiro (clique para ampliar) ando a procurar inspiração me fogem as palavras, como dizê-las? as razões e os modos desaprendi; o único caminho que sigo, ainda, é entre incertezas; guardava poetas na estante mas hoje os guardo lendo a vida e reconheço, viver é intraduzível; o único caminho que sigo, mesmo, é entre asperezas; tem momentos em que o silêncio faz gritar a poesia com palavras que não se escrevem... não quero descobrir os caminhos, apenas ter a luz acesa.

O OUTRO

Me desfiz de mim há algum tempo esse que tropeça entre móveis, gestos é outro mais incerto, Aposto aos dias às horas mornas cego e absoluto Menino Sentado - Portinari de vazios, equívocos viagens sem retorno, Faísca em geleiras seu coração rude mãos calejadas                         o arado nas pedras a trespassar o desejo, Abala os montes acordos, os mitos apura a veleidade inútil das esperas, do sonho impossível, Falho de verdades à beira do abismo entre asa e vento segue o caminho, é outro mais incerto.