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MOMENTO

guardo rompantes de nuvens
nas horas em que entardeço
e a terra gira as esquinas
para a lua brilhar seu véu,

quando entre deserto e mar
o que sonho ampara o mundo
ainda que algo sem sentido
hiberne nesse sono sem fim,

escrevo segredos nas pedras
que levam nas asas do tempo
o quanto não vi do incerto
quando o sol despe a aurora…

guardo rompantes de oceanos
nas vezes em que me esqueço
das coisas de pensar a vida
e olho a imensidade seguir,

me disfarço a massa informe
a parte inconclusa, a falta
ondas fiam a carne da noite
por essa ausência no mundo,

dividido em sombra e vazio
viajante do que não alcanço
recluso na própria miragem
tudo que levo - é esse agora…

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CÔMPUTO

A equação do voo das moscas o zunido do fosso dos ventos, O número de grãos da areia a ferrugem dos dias e da alma,                                                                        O azul a lua etérea,                              as páginas obscuras do Índex, voos e ardis,                                                                                 O abecedário das formigas o sustenido dos pardais, O sol nos bancos das praças a ordem objetiva do mundo... Tudo foi calculado.

ESTANTE

Colaboração de Rita Carvalho   em desenho de  Raquel Pinheiro (clique para ampliar) ando a procurar inspiração me fogem as palavras, como dizê-las? as razões e os modos desaprendi; o único caminho que sigo, ainda, é entre incertezas; guardava poetas na estante mas hoje os guardo lendo a vida e reconheço, viver é intraduzível; o único caminho que sigo, mesmo, é entre asperezas; tem momentos em que o silêncio faz gritar a poesia com palavras que não se escrevem... não quero descobrir os caminhos, apenas ter a luz acesa.

O OUTRO

Me desfiz de mim há algum tempo esse que tropeça entre móveis, gestos é outro mais incerto, Aposto aos dias às horas mornas cego e absoluto Menino Sentado - Portinari de vazios, equívocos viagens sem retorno, Faísca em geleiras seu coração rude mãos calejadas                         o arado nas pedras a trespassar o desejo, Abala os montes acordos, os mitos apura a veleidade inútil das esperas, do sonho impossível, Falho de verdades à beira do abismo entre asa e vento segue o caminho, é outro mais incerto.