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POÉTICA

sei contar estrelas até cansar
e enumerar nuvens pelos tons
umas mais cinza, outras azuis
aprendi cedo a planar avessos,

deliberar os desusos e vazios
foi um ato contínuo a discorrer
assim como ver o imaginário
fosse mais o certo que existir;

sei coisas do como, do quando
que nenhuma soma dispõe ver
tudo que seja fortuito me fala
num idioma de aflorar os rios,

tudo de já esquecido no mundo
me fala em olhos de horizontes
o sol me forma sobre o tempo
a lua me canta jeitos de sentir;

entendo o invisível e a poeira
leio fragmentos em espelhos
sei a rota que une o impossível
a esse mistério do outro lado,

sei coisas do sempre, do porquê
aquilo que se nega, eu afianço
traço letras de tudo pertencer
do pasmo ao imanente que advir...



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CÔMPUTO

A equação do voo das moscas o zunido do fosso dos ventos, O número de grãos da areia a ferrugem dos dias e da alma,                                                                        O azul a lua etérea,                              as páginas obscuras do Índex, voos e ardis,                                                                                 O abecedário das formigas o sustenido dos pardais, O sol nos bancos das praças a ordem objetiva do mundo... Tudo foi calculado.

ESTANTE

Colaboração de Rita Carvalho   em desenho de  Raquel Pinheiro (clique para ampliar) ando a procurar inspiração me fogem as palavras, como dizê-las? as razões e os modos desaprendi; o único caminho que sigo, ainda, é entre incertezas; guardava poetas na estante mas hoje os guardo lendo a vida e reconheço, viver é intraduzível; o único caminho que sigo, mesmo, é entre asperezas; tem momentos em que o silêncio faz gritar a poesia com palavras que não se escrevem... não quero descobrir os caminhos, apenas ter a luz acesa.

O OUTRO

Me desfiz de mim há algum tempo esse que tropeça entre móveis, gestos é outro mais incerto, Aposto aos dias às horas mornas cego e absoluto Menino Sentado - Portinari de vazios, equívocos viagens sem retorno, Faísca em geleiras seu coração rude mãos calejadas                         o arado nas pedras a trespassar o desejo, Abala os montes acordos, os mitos apura a veleidade inútil das esperas, do sonho impossível, Falho de verdades à beira do abismo entre asa e vento segue o caminho, é outro mais incerto.