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LEVIATÃ

preso do meu desespero
matei e esfolei o bicho
joguei o corpo às sombras
e ele, apenas ria de mim,

saiu da pele rasgada
queimou mares de vidro
de um mal vindo de longe
sem ter começo nem fim;                                                        
'que fiz por merecer isso'
era meu grito no limbo
enquanto ruía o universo
e tudo a que me prendia,

e o mundo vinha abaixo
os átomos se extinguiam
lutava além do possível
mas o bicho apenas se ria;

talvez me salve da fera
mude o curso da história
e descubra desse mistério
que trouxe a visão malsã...

na tempestade se ergue
e com a voz do infinito
à luz da última estrela,
diz:’meu nome é Leviatã!'

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CÔMPUTO

A equação do voo das moscas o zunido do fosso dos ventos, O número de grãos da areia a ferrugem dos dias e da alma,                                                                        O azul a lua etérea,                              as páginas obscuras do Índex, voos e ardis,                                                                                 O abecedário das formigas o sustenido dos pardais, O sol nos bancos das praças a ordem objetiva do mundo... Tudo foi calculado.

ESTANTE

Colaboração de Rita Carvalho   em desenho de  Raquel Pinheiro (clique para ampliar) ando a procurar inspiração me fogem as palavras, como dizê-las? as razões e os modos desaprendi; o único caminho que sigo, ainda, é entre incertezas; guardava poetas na estante mas hoje os guardo lendo a vida e reconheço, viver é intraduzível; o único caminho que sigo, mesmo, é entre asperezas; tem momentos em que o silêncio faz gritar a poesia com palavras que não se escrevem... não quero descobrir os caminhos, apenas ter a luz acesa.

O OUTRO

Me desfiz de mim há algum tempo esse que tropeça entre móveis, gestos é outro mais incerto, Aposto aos dias às horas mornas cego e absoluto Menino Sentado - Portinari de vazios, equívocos viagens sem retorno, Faísca em geleiras seu coração rude mãos calejadas                         o arado nas pedras a trespassar o desejo, Abala os montes acordos, os mitos apura a veleidade inútil das esperas, do sonho impossível, Falho de verdades à beira do abismo entre asa e vento segue o caminho, é outro mais incerto.