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SINCRONIA

Quase submerso pelas cores vejo apagar-se o sol ao longe, A View From My Window - 1984 by Jan Saudek É o momento em que silencia tudo, a um só e mesmo tempo,  E se acordam vozes distantes que se houveram esquecidas;      Contar do que sinto se perde tudo que sou é limitado, e cru, Porém, vislumbro o horizonte mesmo sem saber qual rumo, Na trilha das dessemelhanças, abraço a sincronia do universo.

OPOSTOS

O que me tarda é pouco me deságuo em partes essas águas que encalço para completar os rios, Se meu destino é o mar partilho além o agora da vastidão que me cabe desde os tempos sem fim;                         O que me tarda é muito entre divisões e somas seja refugo, ou ausência de tudo quanto incidir, E se por certo é o vazio outra medida humana, a fronteira que procuro conclui sua órbita em mim. 

FUMAÇA

Meu transitório é o canto de jamais partir, sem largar sobre a soleira os feixes de pegadas, não existo antes de pisar o umbral da porta, não existo depois de ir-se os passos na estrada; Me fogem os meus dias tragados em nuvens, nas asas riscadas em vento e aves de fumaça, que tempo é o sol que foi a me levar na areia? - o que restou nesses olhos é tudo que não passa...

DESPERTAR

Talvez outro pensamento indizível remoer de grãos, e havia num recinto vazio formas já gastas e pesos, As considerações de nada martelos pregos trapézios 7 AM - 1968 by Jan Saudek vaga-lumes  anjos retratos dígitos e vasos sem flores, O tempo expirava as horas e fazia a manhã indefinida pulsar na onda petrificada um oceano de olhos azuis,    O desejo a estancar a vida escorria nas areias imóveis sopro de deserto arquivado na poeira de livros antigos, Em tudo havia o impreciso o ensaio inútil do combate, e sonhos, a revirar o mundo sangrando as asas no vento.

PELE DE VIDRO

Retirei as escamas da pele de sombra vesti essa feitura de espaços indivisos e lágrima de brasa,   Não vejo o espelho de levar o que sei às luas sem nome, dentro de sentir fere uma nudez de fogo, Quando a vontade se encrava na luz acesa entre nuvens, dói a fome em tudo que sei de esperar.

OUTONO DE PAPEL

Folhas avulsas no chão, nas ruas lixo indulgente, pedaços de papel guardanapos folhas de jornal, bulas de remédio bilhetes amassados panfletos voadores, páginas rasgadas rascunhos de teses convites recusados, recibos vencidos mapas improváveis lição de casa, folhas avulsas no tempo, no espaço onipresentes. São as águas de março  fechando o verão... Tom Jobim

O OUTRO

Me desfiz de mim há algum tempo esse que tropeça entre móveis, gestos é outro mais incerto, Aposto aos dias às horas mornas cego e absoluto Menino Sentado - Portinari de vazios, equívocos viagens sem retorno, Faísca em geleiras seu coração rude mãos calejadas                         o arado nas pedras a trespassar o desejo, Abala os montes acordos, os mitos apura a veleidade inútil das esperas, do sonho impossível, Falho de verdades à beira do abismo entre asa e vento segue o caminho, é outro mais incerto.