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ARTESANIA DE NADAS

fabricava poemas
melhor seria se fizesse guarda-chuvas
o tempo é tão imprevisto
não se pode confiar na meteorologia
para dizer se chove ou não
melhor fazer guarda-chuvas,

de que adiantam palavras
quando a balança comercial oscila
o mercado as finanças  os percentuais...
e o frágil equilíbrio do mundo
é determinado por homens sem alma
melhor fazer guarda-chuvas,
                             
fazer poemas é tão inútil
quanto um domingo nevoento
como um daqueles dias de feriado
quando tudo para de vez
deve-se fabricar guarda-chuvas
é a única garantia que o mundo continue,

melhor a oficina de sombrinhas
que palavras a inquietar a razão
que sonhos a crescer pelos cabelos
esqueçam-se os poemas!
como a poeira escondida no tapete
depois da faxina malfeita.

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CÔMPUTO

A equação do voo das moscas o zunido do fosso dos ventos, O número de grãos da areia a ferrugem dos dias e da alma,                                                                        O azul a lua etérea,                              as páginas obscuras do Índex, voos e ardis,                                                                                 O abecedário das formigas o sustenido dos pardais, O sol nos bancos das praças a ordem objetiva do mundo... Tudo foi calculado.

ESTANTE

Colaboração de Rita Carvalho   em desenho de  Raquel Pinheiro (clique para ampliar) ando a procurar inspiração me fogem as palavras, como dizê-las? as razões e os modos desaprendi; o único caminho que sigo, ainda, é entre incertezas; guardava poetas na estante mas hoje os guardo lendo a vida e reconheço, viver é intraduzível; o único caminho que sigo, mesmo, é entre asperezas; tem momentos em que o silêncio faz gritar a poesia com palavras que não se escrevem... não quero descobrir os caminhos, apenas ter a luz acesa.

O OUTRO

Me desfiz de mim há algum tempo esse que tropeça entre móveis, gestos é outro mais incerto, Aposto aos dias às horas mornas cego e absoluto Menino Sentado - Portinari de vazios, equívocos viagens sem retorno, Faísca em geleiras seu coração rude mãos calejadas                         o arado nas pedras a trespassar o desejo, Abala os montes acordos, os mitos apura a veleidade inútil das esperas, do sonho impossível, Falho de verdades à beira do abismo entre asa e vento segue o caminho, é outro mais incerto.