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RETRATO

falava pouco, aquele retrato
tecido em silêncio inaudível 
dizia muito a remoer o pasto
pelas regiões de não lembrar,

depois, emudecia as estórias
Fia Doepel  - www.ideafixa.com
no entornar de mares vazios,
- onde encontrar “o que sou”
de outro tempo já exaurido?

“o que sou” de agora refazia
a imagem, às vezes, nublada
a derramar-se em chuva gris
numa dimensão de imaginar,

escuto das cores desbotadas
plainar meus olhos distantes
a tessitura das horas na teia
numa linha a tecer universos,

porém, não ouvirei do retrato
mais que sombra e ausência
como uma praia já esquecida
cujas ondas não podem voltar.

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CÔMPUTO

A equação do voo das moscas o zunido do fosso dos ventos, O número de grãos da areia a ferrugem dos dias e da alma,                                                                        O azul a lua etérea,                              as páginas obscuras do Índex, voos e ardis,                                                                                 O abecedário das formigas o sustenido dos pardais, O sol nos bancos das praças a ordem objetiva do mundo... Tudo foi calculado.

ESTANTE

Colaboração de Rita Carvalho   em desenho de  Raquel Pinheiro (clique para ampliar) ando a procurar inspiração me fogem as palavras, como dizê-las? as razões e os modos desaprendi; o único caminho que sigo, ainda, é entre incertezas; guardava poetas na estante mas hoje os guardo lendo a vida e reconheço, viver é intraduzível; o único caminho que sigo, mesmo, é entre asperezas; tem momentos em que o silêncio faz gritar a poesia com palavras que não se escrevem... não quero descobrir os caminhos, apenas ter a luz acesa.

O OUTRO

Me desfiz de mim há algum tempo esse que tropeça entre móveis, gestos é outro mais incerto, Aposto aos dias às horas mornas cego e absoluto Menino Sentado - Portinari de vazios, equívocos viagens sem retorno, Faísca em geleiras seu coração rude mãos calejadas                         o arado nas pedras a trespassar o desejo, Abala os montes acordos, os mitos apura a veleidade inútil das esperas, do sonho impossível, Falho de verdades à beira do abismo entre asa e vento segue o caminho, é outro mais incerto.